Inteligência de mercado

Quantos FIDCs existem no Brasil e quem os administra

Na competência de junho/2026, o mercado brasileiro de FIDCs tem 4.311 veículos ativos, com R$ 999,2 bilhões de patrimônio líquido somado, distribuídos entre 51 administradores. Os cinco maiores administradores respondem por 50,01% dos veículos, e o maior deles, sozinho, por 19,00%.

Como ler o patrimônio somado. Ele é a soma do PL das classes que entregaram o informe da competência, e não uma medida do dinheiro que entrou no mercado. Um FIDC que investe em cotas de outro FIDC aparece dos dois lados, então a soma fica acima do total consolidado que a indústria reporta para o mesmo período. Contagem, mediana e distribuição por porte não sofrem desse efeito, e é por isso que o panorama em /fidcs lidera por eles.

Fonte: CVM Dados Abertos, informe mensal de FIDC, arquivo inf_mensal_fidc_202606.zip · competência junho/2026 · extraído em 3 de agosto de 2026 · página atualizada em 3 de agosto de 2026

Indicadores da competência

IndicadorValorDetalhe
Veículos de FIDC ativos4.31119 fundos e 4.292 classes
Patrimônio líquido somadoR$ 999,2 bisoma do PL de todos os veículos
Administradores51entidades distintas
Maior administrador19,00%QI Corretora, 819 veículos
Três maiores38,81%participação acumulada nos veículos
Cinco maiores50,01%2.156 veículos
Dez maiores68,06%participação acumulada nos veículos
Índice HHI, por veículos732mercado não concentrado
Índice HHI, por patrimônio755mercado não concentrado

O índice HHI é a medida usual de concentração em defesa da concorrência. Abaixo de 1.500 o mercado é tratado como não concentrado; entre 1.500 e 2.500, moderadamente concentrado; acima disso, altamente concentrado. Nas duas bases de cálculo, o mercado de administração de FIDC fica em torno da metade do piso da primeira faixa. Não é um mercado concentrado, e nenhum número aqui autoriza essa palavra.

O que os dados mostram é outra coisa, e ela é relevante por si só: um mercado de quase R$ 1 trilhão operando com pouco mais de 50 casas habilitadas, porque administrar FIDC exige ser DTVM. Daí decorre um risco operacional que independe de concentração no sentido antitruste — uma falha na QI Corretora, sozinha, atingiria 819 veículos, ou 19,00% do mercado.

Os 15 maiores administradores de FIDC do Brasil

Por número de veículos administrados, competência junho/2026.

#AdministradorVeículos% dos veículosPL (R$ bi)
1QI Corretora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.81919,00%141,7
2BTG Pactual Serviços Financeiros S/A DTVM43710,14%161,0
3Banco Daycoval S.A.4179,67%61,8
4ID Corretora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.2986,91%16,9
5Vortx Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários1854,29%17,8
6Planner Corretora de Valores S.A.1814,20%13,4
7Limine Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários1663,85%13,6
8Oliveira Trust DTVM S.A.1593,69%99,9
9BRL Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários1413,27%22,5
10Hemera Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários1313,04%25,4
11Azumi Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários972,25%2,2
12Genial Investimentos Corretora de Valores Mobiliários872,02%31,8
13FIDD Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários872,02%10,2
14CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.841,95%51,9
15Monetar Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários821,90%3,3

Quantidade não é tamanho, e a tabela mostra isso. A QI lidera em número de veículos, mas o BTG Pactual administra mais patrimônio com metade dos veículos. A Oliveira Trust é a oitava em quantidade e a terceira em patrimônio, com R$ 99,9 bilhões. Qualquer afirmação sobre quem "domina" a administração de FIDC depende de qual das duas métricas se está usando.

Metodologia

Os números saem do arquivo oficial do informe mensal de FIDC publicado pela CVM em Dados Abertos, sob licença ODbL. O processo é o seguinte:

  1. download do arquivo oficial da CVM referente à competência;
  2. leitura dos CSVs com tratamento de campos entre aspas e codificação latin1;
  3. identificação do veículo e do administrador na tabela I do informe, e do patrimônio líquido na tabela IV;
  4. junção das duas tabelas pela chave composta tipo do registro mais CNPJ do veículo, que é única em ambas e cobre 100% dos registros — nenhum veículo fica sem PL;
  5. verificação de dupla contagem entre fundo e classe;
  6. consolidação por administrador, pelo CNPJ do administrador e não pelo nome;
  7. cálculo do índice HHI e dos cortes Top 1, 3, 5 e 10, nas duas bases: veículos e patrimônio;
  8. validação cruzada dos percentuais.

Nenhum registro é descartado. Na competência de junho/2026 não há veículo sem administrador informado, nem CNPJ de administrador com mais de uma grafia de nome, nem nome usado por mais de um CNPJ: são 51 CNPJs para 51 nomes distintos.

O arquivo da CVM é mutável, e por isso a data de extração importa

A CVM republica o arquivo de uma competência já publicada quando recebe entregas em atraso ou retificadas. Aconteceu duas vezes com esta. A competência de junho/2026 foi republicada em 25 de julho e de novo em 1º de agosto de 2026, e o mercado apurado saiu de 4.252 veículos e 52 administradores na nossa primeira extração, em 20 de julho, para 4.290 e 51 na segunda, em 31 de julho, e para 4.311 e 51 nesta, de 3 de agosto de 2026. Não é divergência de método, é a base mudando: a mesma competência, lida em três dias diferentes, dá três respostas. O que não mudou em nenhuma delas foi a leitura de fundo, e isso é o mais relevante aqui: o HHI ficou sempre bem abaixo do limiar de 1.500 e a composição dos maiores administradores é estável. Por isso todo número desta página vem carimbado com a data em que o arquivo foi baixado, e por isso qualquer citação a ele deve carregar esse mesmo carimbo.

Por que classe e fundo não são a mesma coisa

Este é o ponto que mais gera divergência entre contagens publicadas do mercado de FIDC. Depois da Resolução CVM 175/2022, um fundo pode ter várias classes de cotas, cada uma com CNPJ próprio, e é a classe que entrega o informe mensal. O cadastro de fundos, por outro lado, continua organizado por fundo.

A consequência prática é que a maioria dos CNPJs que aparecem no informe não existe no cadastro de fundos, porque são universos diferentes. Uma apuração que cruze os dois cadastros sem tratar essa distinção perde a maior parte da base e reporta um mercado muito menor do que o real. Por isso a contagem aqui é feita sobre o próprio informe, que é o registro autoritativo dos FIDCs depois da 175, e por isso ela declara explicitamente quantos são fundos e quantos são classes.

Por que junho/2026 e não a competência seguinte

O Mandor só analisa competências fechadas. Pela Resolução CVM 175, o informe de um mês tem entrega obrigatória até o dia 15 do mês seguinte; antes disso a base está incompleta e distorceria a concentração para baixo, porque os últimos a entregar ficam de fora. A extração foi feita em 3 de agosto de 2026, depois do prazo e com margem para entregas de última hora. Sempre o último mês completo, nunca amostra parcial.

O que essa estrutura significa em risco

Os riscos abaixo não decorrem de concentração de mercado, que o HHI afasta, e sim do fato de haver poucos prestadores habilitados e de a carteira de cada um ser grande em termos absolutos.

Tipo de riscoComo se manifesta
OperacionalUma falha na QI Corretora afeta 819 veículos, 19,00% do mercado.
RegulatórioA Resolução CVM 175/2022 exige independência entre prestadores, mas não limita a participação de um mesmo administrador.
LiquidezPoucos prestadores reduzem as opções de substituição e elevam o custo de transação.
ReputacionalO colapso de um administrador concentrado abala a confiança em todo o segmento.

Dois casos em que o ponto único de falha virou crise

Greensill e Credit Suisse, 2021

A Greensill era o prestador concentrado que originava e revisava os recebíveis dos fundos de financiamento de cadeia de suprimentos do Credit Suisse. Quando quebrou, o banco congelou US$ 10 bilhões em fundos de uma só vez, com perdas estimadas em até US$ 3 bilhões. O regulador suíço concluiu que o banco tinha pouco conhecimento e controle sobre a carteira, já que era o próprio prestador único quem selecionava os créditos.

Americanas, 2023

A fraude contábil de mais de R$ 40 bilhões respingou direto no mercado de recebíveis: o FIDC Fênix II, de R$ 2,3 bilhões, foi liquidado, e 80% dos fundos de renda fixa expostos às debêntures da varejista tiveram retorno negativo na semana da revelação. Um único ponto de falha atingindo dezenas de fundos ao mesmo tempo.

Os eixos são diferentes: a Americanas concentra risco no devedor, a Greensill no prestador de serviço. O mecanismo é o mesmo, e o resultado também: um ponto único que se propaga por todo o mercado. Hoje, entre os FIDCs brasileiros, um único administrador responde por 19,00% de todos os veículos. Vale a ressalva: nenhum dos dois casos foi causado por concentração de mercado no sentido antitruste, e não é isso que os números desta página mostram. O que eles mostram é escala absoluta concentrada em poucos prestadores, que é um risco de outra natureza.

Perguntas frequentes

Quantos FIDCs existem no Brasil?

Na competência de junho/2026, o informe mensal da CVM registra 4.311 veículos de FIDC ativos, sendo 19 fundos e 4.292 classes. A distinção importa: depois da Resolução CVM 175/2022, o informe é entregue por classe, e não por fundo, então contagens que misturam os dois critérios divergem entre si.

Qual o administrador com mais FIDCs no Brasil?

A QI Corretora de Títulos e Valores Mobiliários administra 819 veículos, ou 19,00% do mercado, na competência de junho/2026. É o maior administrador de FIDCs do país por número de veículos. Por patrimônio, porém, a liderança é outra: a QI responde por 14,18% do PL, atrás do BTG Pactual Serviços Financeiros, com 16,11%.

O mercado de FIDCs brasileiro é concentrado?

Pelo critério usual de defesa da concorrência, não. O índice HHI por administrador é de 732 quando calculado por número de veículos e 755 quando calculado por patrimônio líquido — em ambos os casos bem abaixo de 1.500, patamar a partir do qual um mercado costuma ser tratado como moderadamente concentrado. O que os números mostram não é concentração, e sim uma estrutura enxuta: os 5 maiores administradores respondem por 2.156 dos 4.311 veículos, ou 50,01%; os 3 maiores somam 38,81% e os 10 maiores, 68,06%. São pouco mais de 50 casas habilitadas para um mercado de quase R$ 1 trilhão, com a exigência de ser DTVM como barreira de entrada.

Qual a diferença entre fundo e classe num FIDC?

Depois da Resolução CVM 175/2022, um fundo pode ter várias classes de cotas, cada uma com CNPJ próprio, e é a classe que entrega o informe mensal. Por isso o CNPJ do informe frequentemente não existe no cadastro de fundos: são universos diferentes. Contagens que casam os dois cadastros sem tratar essa distinção perdem a maior parte da base.

A Resolução CVM 175 limita a concentração de administradores?

Não. A Resolução CVM 175/2022 estabelece exigências de independência entre prestadores de serviço, mas não fixa teto para a participação de um mesmo administrador no total de veículos do mercado. Nos números atuais isso não configura problema concorrencial — o HHI está longe do limiar —, mas é o que permite que um único administrador chegue a quase um quinto dos veículos do país sem qualquer trava regulatória.

De onde vêm esses dados e posso reutilizá-los?

Da base de Dados Abertos da CVM, arquivo inf_mensal_fidc_202606.zip do informe mensal de FIDC, sob licença ODbL, portanto redistribuível com atribuição. A apuração e a consolidação por administrador são do Mandor. Não constitui recomendação de investimento.

Como citar

Mandor. Concentração de administradores de FIDC no Brasil, competência junho/2026. Apuração sobre o informe mensal da CVM (inf_mensal_fidc_202606.zip). Disponível em www.mandor.com.br/numeros-fidcs-brasil.

Dados públicos da CVM sob licença ODbL, redistribuíveis com atribuição. A apuração e a consolidação por administrador são do Mandor. Este material não constitui recomendação de investimento.

Ver também: este relatório em formato de apresentação e a metodologia do Mandor.