Empresas familiares respondem por cerca de 65% do PIB brasileiro, e 35% dos CEOs desse grupo duvidam da viabilidade do negócio na próxima década. A venda por ausência de sucessor não apareceu no noticiário de 25 a 31 de agosto porque ela acontece antes do noticiário.
Quatro movimentos societários e de funding entraram no radar entre 25 e 31 de agosto: a Multiplan captou R$ 300 milhões em CRI, o conselho da Bemobi aprovou incorporar uma subsidiária integral, a HBR Realty recebeu proposta da SPX Real Estate por participação em quatro empreendimentos e a J&F fechou a compra de 100% da controladora da Avibras, esta última anunciada entre 21 e 24 de agosto. Nenhuma delas é uma família deixando o negócio.
O contraste vale registrar. Segundo dados do IBGE citados pela PwC, empresas familiares respondem por cerca de 65% do PIB e 75% da força de trabalho no Brasil, e pesquisa da PwC aponta que 35% dos CEOs de empresas familiares brasileiras manifestaram preocupação com a viabilidade do negócio na próxima década. O que não apareceu na semana é o que está sendo decidido dentro dela, nas empresas que ainda não chegaram ao mercado.
O comprador da semana também é uma empresa familiar
A operação de controle mais relevante da janela ampliada tem holding familiar de um dos lados. A J&F, dos irmãos Batista, adquiriu via Globe Investimentos 100% das ações da Nova AVB, empresa que controla a Avibras Indústria Aeroespacial, e com isso entrou no setor de defesa. O anúncio saiu entre 21 e 24 de agosto e o valor não foi divulgado pelas fontes que cobriram a transação.
Vale reter o desenho. Quem consolida no Brasil é, com frequência, um grupo familiar que já passou pela travessia que a empresa comprada ainda não fez: profissionalizou a gestão, separou o patrimônio da família do caixa da operação e construiu um veículo de participações capaz de assinar uma aquisição de controle.
Comprador e vendedor são a mesma categoria de empresa em fases diferentes do ciclo.
Captar não é o mesmo que estar pronto para vender
A Multiplan captou R$ 300 milhões em oferta pública de CRIs da 627ª emissão, lastreados em debêntures simples não conversíveis, em 28 de agosto. É companhia aberta de controle familiar, e o dado interessante não é o volume: é a fluidez.
Uma empresa que acessa o mercado de capitais nessa velocidade já resolveu o que a maioria das familiares não resolveu. Demonstração auditada em dia. Estrutura societária legível por um terceiro. Alguém além do fundador com mandato para assinar. Contratos de receita organizados a ponto de servirem de lastro.
É, item por item, a mesma lista que a diligência de um comprador abre no primeiro dia. Quem consegue captar consegue ser comprado, porque a infraestrutura de informação exigida nos dois casos é a mesma. Quem não consegue nem levantar dívida estruturada dificilmente vai suportar uma sala de dados com quarenta pedidos por semana.
A distância entre uma coisa e outra costuma ser medida em anos de arrumação contábil, não em disposição de vender. Vale a pena entender também como esse trabalho se converte em preço, tema que tratamos no artigo sobre valuation publicado em agosto.
Reorganização societária é preparação para vender, mesmo quando não parece
O conselho da Bemobi aprovou em 28 de agosto a incorporação da 7AZ Softwares, subsidiária integral, com assembleia de acionistas marcada para 30 de setembro. A operação não envolve emissão de novas ações nem alteração do capital social.
É o tipo de movimento que some no noticiário no dia seguinte. E é precisamente o trabalho que antecede qualquer transação: simplificar o organograma, eliminar veículo redundante, deixar claro o que se compra quando alguém comprar.
Numa empresa familiar de porte médio, o mesmo exercício de preparar a estrutura costuma revelar coisas menos elegantes. A holding que nunca foi constituída. O imóvel da operação que está no nome do fundador. A empresa irmã que fatura parte do contrato principal sem que exista contrato entre as duas. Nada disso impede a venda, mas tudo isso vira desconto no preço quando aparece na diligência em vez de aparecer antes dela.
Vender parte é a saída que quase ninguém planeja
A HBR Realty informou em 28 de agosto ter recebido proposta da SPX Real Estate para aquisição de participação em quatro empreendimentos: Mogi Shopping, Suzano Shopping, Patteo Olinda Shopping e Lead Corporate Faria Lima. É proposta recebida, não operação fechada, e o valor não foi divulgado.
O mecanismo importa mais que o desfecho. Vender uma fatia de ativos específicos é alternativa concreta à venda do controle, e resolve o impasse clássico da família que precisa de liquidez para uns sócios e continuidade para outros.
Só que ela depende de uma condição que poucas empresas cumprem: saber separar os próprios ativos por unidade. Quem tem tudo misturado em um CNPJ, com receitas cruzadas e custos rateados por critério nunca formalizado, não consegue vender um pedaço. Consegue vender o todo, na hora em que precisar, pelo preço que oferecerem.
O que a semana não mostrou, e é o que decide o preço
Nenhuma das quatro operações foi motivada por ausência de sucessor. É isso que torna a semana representativa, e não o contrário.
A venda por sucessão não vira notícia no dia em que a família decide. Ela vira notícia de 12 a 24 meses depois, quando termina um processo que costuma levar de 9 a 16 meses entre o alinhamento dos herdeiros e o fechamento. O intervalo inteiro acontece fora do noticiário.
"O maior risco para muitas empresas brasileiras não será a crise econômica, e sim a ausência de sucessores", afirma Lucas Mendes, CEO da Helping Hand, consultoria de valuation e M&A.
Não existe levantamento público brasileiro que meça quantas vendas são motivadas por sucessão, e é honesto dizer isso em vez de estimar. O que dá para descrever é o que se perde quando o intervalo não é usado. O critério de precificação que só existe na cabeça do fundador, e que ninguém conseguiu escrever. A lista de contrapartes que nunca saiu do celular dele. A memória das negociações que não fecharam, e o motivo pelo qual não fecharam, que é justamente o ativo que um comprador estratégico pagaria para ter.
Empresa que depende de uma pessoa para ser explicada vale menos do que empresa que se explica sozinha. A diferença aparece no múltiplo.
A pergunta não é quantas empresas familiares serão vendidas nos próximos anos. É quantas estarão em condição de ser compradas quando a decisão chegar.
Perguntas frequentes
Como preparar uma empresa familiar para vender?
Comece pelo que a diligência vai abrir: demonstração auditada, estrutura societária sem sobreposição, imóveis e contratos no CNPJ certo e alguém além do fundador com mandato para decidir. O alinhamento entre herdeiros vem antes de qualquer contato com o mercado, e a preparação costuma levar de 12 a 24 meses.
Quanto tempo leva para vender uma empresa familiar?
O processo em si, do alinhamento societário ao fechamento, costuma levar de 9 a 16 meses. Antes dele existe a fase de preparação, de 12 a 24 meses, que é onde se decide o preço. Empresa que entra no mercado sem essa fase negocia desconto, não múltiplo.
É possível vender só uma parte da empresa familiar?
Sim, e a semana de agosto trouxe um exemplo: a HBR Realty recebeu proposta pela participação em quatro empreendimentos específicos. A venda parcial depende de a empresa saber separar seus ativos por unidade, com receitas e custos atribuídos por critério formalizado. Quem tem tudo em um CNPJ só consegue vender o todo.
Inteligência de mercado só vira vantagem quando chega organizada à mesa onde o mandato é decidido.
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