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Valuation na prática: o que é, como se calcula e como ler o número antes de sentar à mesa

Com a Selic em 14,25% ao ano desde a reunião do Copom de junho de 2026, o custo do dinheiro voltou a ser o principal compressor de valuations no Brasil.

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4 de agosto de 2026
Valuation na prática: o que é, como se calcula e como ler o número antes de sentar à mesa

Com a Selic a 14,25%, o mesmo negócio pode valer 7x ou 5x o EBITDA dependendo das premissas. Entenda os dois métodos que produzem esse número, os ajustes que o alteram e as perguntas que testam se ele se sustenta.


Com a Selic em 14,25% ao ano desde a reunião do Copom de junho de 2026, o custo do dinheiro voltou a ser o principal compressor de valuations no Brasil. Cada ponto a mais na taxa de desconto reduz o valor presente dos fluxos futuros de qualquer empresa, e a conta aparece na mesa de negociação antes de aparecer em qualquer relatório.

Um exercício ilustrativo usado por assessorias de valuation dá a dimensão do efeito. Uma empresa com EBITDA de R$ 5 milhões e crescimento projetado de 12% ao ano sai avaliada perto de 7x EBITDA quando a taxa de desconto é de 13%. Com a taxa em 17%, o múltiplo implícito cai para a faixa de 5x a 5,5x. A diferença fica entre R$ 7,5 milhões e R$ 10 milhões no valor final, sem que nada tenha mudado na operação da empresa.

O número, portanto, não é um fato. É uma construção: método, premissas e ajustes que podem ser bem ou mal fundamentados. Este artigo explica o que é valuation de empresas, como os dois métodos dominantes funcionam por dentro, como ler criticamente o número que chega até você e por que essa leitura decide negociações.

Valuation não é preço: é o argumento que sustenta a negociação

Valuation é a estimativa fundamentada do valor econômico de um negócio. A palavra que importa é "fundamentada": um valuation sério explicita o método escolhido, as premissas adotadas e os ajustes aplicados, de forma que outra pessoa consiga refazer o caminho e discordar de pontos específicos, não do número inteiro.

O que o valuation não é: o preço da empresa. Preço é o resultado de uma negociação entre duas partes com interesses opostos, apetites diferentes e alternativas diferentes. O valuation é o argumento que cada lado leva para essa negociação. Vendedor e comprador chegam com números distintos porque partem de premissas distintas, e a distância entre os dois números é exatamente o terreno onde a negociação acontece.

Nem o regulador trata valuation como número único. A Resolução CVM 85/2022, que disciplina os laudos de avaliação em ofertas públicas de aquisição, exige que o avaliador calcule o valor por mais de um critério (preço médio de cotação, valor patrimonial e valor econômico, este por fluxo de caixa descontado ou por múltiplos) e justifique a metodologia escolhida. Se houvesse um método objetivamente correto, a justificativa seria dispensável.

Para empresas de capital fechado, o desafio é maior. O CPC 46, norma contábil que trata de mensuração de valor justo, classifica os inputs de avaliação em três níveis: preços de mercado ativos no Nível 1, dados observáveis no Nível 2 e premissas não observáveis no Nível 3. Empresa fechada cai tipicamente no Nível 3. Na prática, isso significa que quase tudo no valuation depende de premissas que precisam ser defendidas, porque não há cotação de mercado para conferir.

Múltiplos: o método que comprime um mercado inteiro em um número

O método dos múltiplos responde a uma pergunta simples: quanto o mercado está pagando por empresas parecidas com esta? O mecanismo tem três passos.

Primeiro, escolhe-se a métrica de referência. No middle-market, a régua padrão é o EV/EBITDA: o valor da empresa (equity mais dívida líquida) dividido pela geração de caixa operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Outras métricas aparecem em setores específicos, como receita para empresas de software em crescimento acelerado.

Segundo, monta-se o conjunto de comparáveis: empresas listadas do mesmo setor ou transações recentes de empresas semelhantes. Terceiro, aplica-se o múltiplo observado nesses comparáveis à métrica da empresa avaliada. Se empresas parecidas negociam a 6x EBITDA e a sua gera R$ 10 milhões, o valor de referência é R$ 60 milhões.

A força do método está na velocidade e na ancoragem: o múltiplo embute, em um único número, o que o mercado inteiro está disposto a pagar. A fraqueza está no que ele esconde. Três limites merecem atenção no Brasil.

O primeiro é a base de comparação. Não existe base pública de múltiplos de transações de empresas fechadas no Brasil: os valores da maioria dos deals de middle-market não são divulgados. As casas de pesquisa publicam contagem e valor agregado de transações, não múltiplos por operação. Boa parte dos múltiplos que circulam em conversas de mercado vem de operações grandes ou de empresas listadas, populações diferentes da empresa fechada típica.

O segundo é a mediana setorial. Aplicar a mediana do setor sem estratificar os comparáveis por porte, margem e crescimento distorce o resultado, porque uma empresa de R$ 8 milhões de EBITDA com margem apertada não negocia no múltiplo da líder do setor. Comparável ruim gera múltiplo enganoso com aparência de precisão.

O terceiro é a importação de referências estrangeiras. O índice da Capstone Partners registrou múltiplo médio próximo de 9,8x EV/EBITDA no middle-market americano em 2025. O dado serve como contraste, não como proxy: custo de capital, liquidez e risco jurisdicional dos Estados Unidos são outros. O chamado "desconto Brasil" aparece justamente na comparação com essa régua.

DCF: o método que obriga a mostrar as contas

O fluxo de caixa descontado parte de outra lógica: o valor de um negócio é o valor presente do caixa que ele vai gerar. Em vez de perguntar o que o mercado paga, o DCF pergunta o que a empresa entrega. O mecanismo tem quatro passos.

  1. Projetar os fluxos de caixa livres. Normalmente de cinco a dez anos, partindo de receita, margens, investimentos e capital de giro. É aqui que mora a maior parte do otimismo indevido: projeções que descolam do histórico sem explicação são o defeito mais comum dos valuations que não se sustentam.

  2. Estimar o valor terminal. Como a empresa não deixa de existir no fim da projeção, estima-se o valor de tudo que vem depois, em geral por perpetuidade com crescimento constante. Em muitos modelos, o valor terminal responde por mais da metade do valor total, o que torna a premissa de crescimento de longo prazo uma das mais sensíveis do exercício.

  3. Definir a taxa de desconto. O padrão é o WACC, o custo médio ponderado de capital: uma média entre o custo do capital próprio e o custo da dívida, ponderada pela estrutura de capital. Para o capital próprio de uma empresa brasileira, a conta parte da taxa livre de risco e soma o prêmio de risco de mercado. A referência mais usada é a base de Aswath Damodaran, professor da NYU Stern: em janeiro de 2026, o prêmio de risco de mercado do Brasil estava em 7,47% ao ano, dos quais 3,24% correspondem ao prêmio de risco-país. Com a Selic em 14,25%, o ponto de partida já é alto antes de qualquer prêmio.

  4. Trazer tudo a valor presente. Fluxos projetados e valor terminal são descontados pela taxa definida. O efeito é não linear: quanto maior a taxa, mais o valor dos anos distantes se aproxima de zero, e mais o resultado depende do curto prazo.

A força do DCF é a transparência forçada: cada premissa fica exposta e pode ser discutida uma a uma. A fraqueza é a sensibilidade: pequenas mudanças em crescimento ou taxa produzem grandes mudanças no valor, o que exige análise de cenários em vez de um número único.

Vale registrar que múltiplo e DCF não são métodos rivais. O múltiplo é um DCF comprimido: o múltiplo "justo" de uma empresa é função do seu crescimento esperado e da taxa de desconto aplicável. Quando os dois métodos produzem números muito distantes, isso não é uma questão de preferência metodológica. É um sinal diagnóstico de que alguma premissa (nos comparáveis ou na projeção) precisa ser revista.

Como ler um valuation: as cinco perguntas que testam o número

Receber um laudo ou uma proposta de valuation é diferente de aceitá-lo. A leitura crítica se organiza em cinco verificações.

  1. Qual EBITDA foi usado? EBITDA reportado e EBITDA normalizado são coisas diferentes. A normalização remove receitas não recorrentes, despesas pessoais do sócio misturadas na operação e custos capitalizados indevidamente. E a normalização em si é um número declarado; o que valida esse número é a análise de qualidade de resultados (quality of earnings), que testa se os ajustes se sustentam. Um múltiplo correto aplicado a um EBITDA inflado produz um valor errado com aparência de rigor.

  2. De onde vieram os comparáveis? Porte, margem, crescimento e geografia dos comparáveis precisam ser compatíveis com a empresa avaliada. Se o laudo usa a mediana do setor sem abrir a lista de comparáveis, essa omissão já é uma resposta.

  3. Como a taxa de desconto foi montada? A taxa precisa ser decomposta: taxa livre de risco, prêmio de mercado, prêmio de risco-país, custo de dívida. Uma taxa incompatível com a Selic corrente e com o risco-Brasil vigente desloca o valor inteiro. Taxa de desconto sem memória de cálculo é premissa escondida.

  4. Há desconto de iliquidez e como foi fundamentado? Participações em empresas fechadas valem menos que participações equivalentes em empresas listadas, porque não há mercado líquido para vendê-las. A prática de consultorias no Brasil aplica descontos de 15% a 35%, faixa que vem da experiência profissional e de estudos internacionais, já que não há estudo empírico brasileiro recente de amostra ampla. O ponto relevante para o empresário: governança, controladoria organizada e dados auditáveis reduzem esse desconto, porque diminuem o risco percebido pelo comprador.

  5. Os riscos específicos foram tratados no lugar certo? Concentração de clientes, dependência do fundador e passivos regulatórios devem ser tratados nas projeções ou em cláusulas contratuais (earnout, retenção de preço, indenização). Quando o avaliador dilui tudo isso num prêmio genérico somado à taxa de desconto, o risco deixa de ser discutível e vira um número arbitrário.

Um valuation que responde bem às cinco perguntas pode até ser contestado, mas é um argumento sério. Um valuation que falha em duas ou três delas é um número frágil esperando a diligência que vai derrubá-lo.

Por que isso importa: o valuation decide antes de o preço aparecer

A leitura do valuation muda de acordo com quem está do outro lado da mesa. Fundos de private equity e venture capital responderam por cerca de metade das transações de M&A no Brasil em 2025, segundo a KPMG. Comprador financeiro ancora a decisão no múltiplo de entrada e na disciplina de retorno do fundo: ele precisa comprar a um preço que permita a tese de saída. Comprador estratégico captura sinergias que o vendedor não consegue capturar sozinho, e por isso consegue sustentar uma conta diferente.

O pano de fundo é um mercado que se manteve ativo mesmo com juros altos. "A queda no número de fusões foi pequena e podemos considerar um cenário estável", avalia Paulo Guilherme Coimbra, sócio de Deal Advisory & Strategy da KPMG Brasil, sobre o resultado de 2025, atribuindo o desempenho às condições macroeconômicas, em especial juros elevados, com valor médio por transação em alta. Um detalhe metodológico ilustra o próprio argumento deste artigo: a KPMG contou 1.581 transações em 2025, enquanto a TTR Data registrou 1.877. As duas estão certas dentro dos seus critérios de captura. Até a contagem de deals depende de premissa declarada.

Para o vendedor, a consequência é prática. Quem chega à mesa com EBITDA normalizado e validado, premissas de projeção defensáveis, lista de comparáveis aberta e riscos endereçados em cláusula encurta a distância entre o valor pedido e o valor pago. Quem chega com um número redondo e sem memória de cálculo entrega ao comprador o controle da narrativa: a diligência vai reprecificar o negócio, e cada premissa frágil descoberta vira desconto.

Para o analista, a lição é de método: o trabalho não é escolher entre múltiplos e DCF, e sim usar cada um no que ele faz bem. O múltiplo ancora no mercado real; o DCF expõe as premissas do negócio específico. A divergência entre os dois é onde a análise começa.

O valuation não diz quanto a empresa vale. Diz quanto vale o argumento de quem o apresenta.


Perguntas frequentes

O que é valuation de uma empresa?

Valuation de empresas é a estimativa fundamentada do valor econômico de um negócio, construída por um método explícito (múltiplos de mercado ou fluxo de caixa descontado) e por premissas declaradas. Não é o preço final: é o argumento técnico que cada parte leva para a negociação, e sua qualidade depende das premissas que o sustentam.

Qual a diferença entre valuation por múltiplos e por DCF?

O método dos múltiplos estima o valor a partir do que o mercado paga por empresas comparáveis, em geral usando EV/EBITDA. O DCF projeta os fluxos de caixa futuros da empresa e os desconta a valor presente por uma taxa que reflete o risco. O múltiplo ancora no mercado; o DCF expõe as premissas do negócio.

Por que uma empresa fechada vale menos que uma listada comparável?

Porque a participação em empresa fechada não tem mercado líquido para venda, o que gera o desconto por falta de liquidez (DLOM). A prática de consultorias no Brasil aplica entre 15% e 35%. Governança estruturada, controladoria organizada e dados auditáveis reduzem o desconto, porque diminuem o risco percebido pelo comprador.

Como a Selic afeta o valuation das empresas brasileiras?

A Selic eleva a taxa livre de risco, que é a base do custo de capital usado no DCF. Com a taxa em 14,25% ao ano, os fluxos futuros valem menos a valor presente e os múltiplos implícitos se comprimem. Juro alto também torna compradores financeiros mais seletivos, pressionando os preços praticados nas transações.

Quem faz o valuation em uma operação de M&A?

Nas operações de middle-market, o valuation é preparado por assessores financeiros, boutiques de M&A ou consultorias especializadas, tanto do lado vendedor quanto do comprador. Em ofertas públicas de aquisição, a Resolução CVM 85/2022 exige laudo de avaliador independente com metodologia justificada. Cada lado costuma produzir sua própria análise.


Entender como o número é montado é metade da vantagem. A outra metade é a velocidade de análise antes de o deal esfriar.

A Mandor foi desenvolvida para escritórios de assessoria, consultores e operações de M&A que precisam mover análises com mais velocidade e menos retrabalho. Pipeline organizado, triagem estruturada, inteligência aplicada desde o primeiro contato com o deal.

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